Todos os anos, quando chega outubro, vemos o rosa ocupar as redes sociais, as empresas, as campanhas e até as cidades.
Isso é importante. Faz o assunto circular, lembra mulheres de procurarem atendimento e abre espaço para falarmos sobre câncer de mama.
Mas, depois de tantos anos cuidando da saúde feminina, existe algo que eu gostaria de dizer de uma maneira um pouco diferente: não espere outubro para lembrar que suas mamas também contam a história da sua saúde.
Na rotina do consultório, encontro mulheres que cuidam de muitas coisas ao mesmo tempo. Trabalho, filhos, família, compromissos, problemas que precisam ser resolvidos. E, muitas vezes, a própria saúde vai sendo silenciosamente empurrada para depois.
“Depois eu marco.”
“Quando tiver um tempo, eu vejo.”
“Não estou sentindo nada, então deve estar tudo bem.”
Talvez o Outubro Rosa seja uma boa oportunidade para interromper justamente esse “depois”.
Prevenção não significa viver com medo
Quando falamos sobre câncer, é natural que exista receio. Algumas mulheres inclusive adiam consultas ou exames justamente porque têm medo de descobrir alguma coisa.
Mas cuidar da saúde não deve significar viver procurando uma doença.
Significa conhecer o próprio corpo, manter o acompanhamento adequado para sua idade e sua história e não ignorar aquilo que mudou.
Essa diferença é importante.
O objetivo não é fazer com que toda mulher passe o mês de outubro preocupada com câncer de mama. É fazer com que ela termine o mês mais consciente sobre a própria saúde.
Conheça suas mamas, sem transformar isso em uma obrigação
Durante muito tempo, falou-se bastante sobre realizar o autoexame das mamas seguindo uma técnica e uma periodicidade específicas.
Hoje, a orientação é mais ampla.
A mulher deve conhecer suas mamas e perceber aquilo que é habitual em seu próprio corpo. Isso pode acontecer durante o banho, ao trocar de roupa ou em qualquer outro momento do cotidiano.
Não é necessário transformar isso em um ritual cheio de regras.
É preciso, sobretudo, perceber mudanças.
Um nódulo endurecido ou que esteja aumentando, alteração na pele da mama, retração, mudança no formato do mamilo, saída espontânea de líquido pelo mamilo, aumento progressivo da mama ou alterações na região das axilas são exemplos de sinais que merecem avaliação médica.
E aqui existe uma orientação que considero especialmente importante: percebeu algo diferente? Não espere o próximo Outubro Rosa para investigar.
Ter um desses sinais não significa necessariamente ter câncer. Significa que aquela alteração precisa ser avaliada.
E a mamografia? Nem toda mulher precisa seguir exatamente a mesma regra
Esse é um ponto que merece atenção porque as recomendações foram atualizadas.
Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda, como estratégia de rastreamento populacional, a realização de mamografia a cada dois anos para mulheres entre 50 e 74 anos, mesmo quando não existem sintomas.
Mas medicina não deve ser praticada olhando apenas para uma idade escrita no calendário.
Mulheres entre 40 e 49 anos ou acima de 74 anos podem ter indicação de mamografia após uma conversa com o profissional de saúde sobre riscos e benefícios.
Além disso, mulheres com risco aumentado, por histórico pessoal, familiar ou outros fatores, podem necessitar de uma estratégia de acompanhamento diferente.
Por isso, talvez uma pergunta melhor do que simplesmente “já está na idade de fazer mamografia?”
Seja: qual é o acompanhamento adequado para mim, considerando a minha idade, minha história e meus fatores de risco?
Essa é uma conversa que vale a pena ter com seu médico.
“Mas eu não sinto nada.”
Ótimo.
E é justamente aqui que precisamos separar duas situações.
Uma coisa é investigar um sintoma ou uma alteração que apareceu. Outra é realizar o rastreamento em pessoas que não apresentam sinais ou sintomas.
A mamografia de rastreamento existe justamente porque algumas alterações podem ser identificadas antes de serem percebidas pela mulher.
Por outro lado, se existe um sinal suspeito, não devemos simplesmente esperar chegar a data do próximo exame de rotina. A situação precisa ser avaliada individualmente.
O cuidado com a mama também faz parte do cuidado integral da mulher
Como ginecologista, sempre procuro lembrar minhas pacientes de que a saúde feminina não acontece em partes isoladas.
Mama, saúde ginecológica, sexualidade, contracepção, planejamento reprodutivo, climatério, menopausa, saúde óssea e metabólica fazem parte da mesma mulher.
Por isso, o Outubro Rosa pode servir como um lembrete maior, há quanto tempo você não conversa de verdade sobre a sua saúde?
Não apenas sobre aquilo que dói.
Mas sobre aquilo que mudou.
Sobre os exames que ficaram para depois.
Sobre seu histórico familiar.
Sobre as transformações que vieram com a idade.
Sobre aquilo que você percebeu no corpo e decidiu ignorar porque a rotina estava corrida demais.
Se eu pudesse deixar apenas uma orientação neste Outubro Rosa…
Não seria “faça um exame porque estamos em outubro”.
Seria, não terceirize a atenção que o seu corpo merece.
Conheça suas mamas. Perceba mudanças.
Mantenha seu acompanhamento médico.
Faça os exames indicados para a sua idade e para o seu perfil de risco.
E, principalmente, não deixe um sinal diferente esperando na agenda.
Outubro termina.
A campanha termina.
As fachadas deixam de ser cor-de-rosa.
Mas você continua sendo mulher nos outros onze meses do ano. E a sua saúde também continua precisando de atenção.
Dr. Carlos Izaias Sartorão Filho